Destemido nas afrontas que faz ao Judiciário, Bolsonaro tornou-se um ex-corajoso no seu relacionamento com o centrão. Na última sexta-feira, o presidente vetou as emendas orçamentárias secretas na lei que projeta o Orçamento da União para 2022.
Os caciques do centrão informaram ao Planalto que a República tremeria se o veto presidencial fosse mantido. Bolsonaro recuou, abrindo a porteira para que os parlamentares do centrão e assemelhados enviem verbas do Tesouro para seus prefeitos de estimação por meio de emendas em que os nomes dos patronos são mantidos no escuro.
A tentativa de Bolsonaro de
barrar a farra orçamentária foi atribuída à irritação do presidente com a
votação em que a Câmara sepultou a proposta que instituía o voto impresso. Dois
caciques do centrão —o presidente da Câmara Arthur Lira e o chefe da Casa Civil
Ciro Nogueira— sinalizaram que seria melhor o presidente tomar um calmante. E
Bolsonaro, de olho no semáforo do impeachment —aquele que Lira disse ter
evoluído do verde para o amarelo— preferiu recuar a correr o risco de
ultrapassar o sinal vermelho.
As urnas eletrônicas, como se
sabe, são seguras e auditáveis. Mas Bolsonaro mantém sua pregação pelo voto
impresso. Simultaneamente, entrega à turma do centrão emendas orçamentárias
inauditáveis. No Orçamento de 2021, as emendas secretas custaram ao
contribuinte R$ 18,5 bilhões. Somando-se essa cifra às emendas individuais (R$
9,7 bilhões) e às de bancada (R$ 7,3 bilhões), os parlamentares manusearam R$
35,5 bilhões. Isso equivale ao custo anual do Bolsa Família. Os valores do
Orçamento de 2022 serão definidos até dezembro. Com seu recuo, Bolsonaro alugou
por pelo menos mais seis meses a chave do gavetão onde Arthur Lira esconde mais
130 pedidos de impeachment.

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