A
boa notícia é que Jair Bolsonaro desengavetou a reforma
administrativa. A má notícia é que, a despeito de incluir muitos pontos
positivos, a proposta é incompleta e confusa.
É
incompleta porque trata de servidores do Executivo, mas exclui os militares.
Inclui servidores do Legislativo e do Judiciário, mas deixa de fora
parlamentares e magistrados. Tampouco trata de procuradores.
É
confusa porque expõe os princípios que serão escritos na Constituição sem
apresentar os projetos de lei com a regulamentação das regras gerais.
Desregulamentados, os princípios não saem do
papel.
Alega-se
que o Executivo não pode bulir com a cúpula de outros poderes. Tolice. O governo
não tem como impor sua vontade a estados e municípios. Nem por isso deixou de
propor que a reforma seja estendida aos demais entes da
federação.
A
decisão não é do governo. Cabe aos parlamentares deliberar sobre a reforma.
Foram eleitos para isso. Mas o Executivo, encarregado de administrar a caixa
registradora em nome do contribuinte, não deveria se autocensurar. Ao contrário,
precisa atrair os demais poderes para o
debate.
A
proposta sugere o fim das férias de mais de 30 dias e da aposentadoria
compulsória. Juízes, parlamentares e procuradores têm dois meses de férias. Não
serão incomodados. Juízes pilhados em ilegalidades, são presenteados com uma
aposentadoria, sem perder o contracheque. A reforma não trata
disso.
Na
semana passada, o presidente do Supremo e do CNJ, Dias Toffoli, ordenou aos
tribunais que comprem 20 dias de férias dos magistrados que quiserem fazer ao
país o favor de reduzir o seu ócio anual para "apenas" 40 dias. A reforma não
aborda esse
escracho.
No
ano passado, quando foi feita a reforma da
Previdência, os militares ganharam tratamento VIP. Aprovou-se para eles não
uma reforma do sistema previdenciário, mas um plano de carreira —com aumentos de
contracheque. Agora, os servidores fardados são novamente
poupados.
A
proposta de emenda constitucional trata apenas dos futuros servidores.
Compreensível. Evita-se o velho debate sobre "direitos adquiridos". Mas
Bolsonaro impediu que a equipe econômica levasse à mesa a poda de privilégios
que não se confundem com
direitos.
As
peculiaridades da proposta do governo embaralham o debate. E inibem a
compreensão da sociedade. Com sorte, aprova-se alguma coisa, para que o governo
e seus apoiadores cantem vitória. Com realismo, sem o entusiasmo das ruas, nem
isso.

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